Quinto Sol, vol. 30, n.º 2, mayo-agosto
2026, ISSN 1851-2879, pp. 1-13
http://dx.doi.org/10.19137/qs.v30i2.9729

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Dossier
Escrita no espaço: reflexões iniciais sobre as Narrativas do imagineRio como ferramenta de ensino
Escribir en el espacio: aproximaciones sobre las Narrativas del imagineRio como herramienta didáctica
Writing in Space: first Impressions on imagineRio Narratives as a Teaching Tool
Deborah Fontenelle
Universidad de Rio de Janeiro
Brasil
Correo electrónico: fontanelle.deborah@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2389-8664
Bruno Buccalon
Rice University. History Department
Estados Unidos
Correo electrónico: buccalon@rice.edu
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6463-936X
Resumo
Este artigo apresenta os resultados preliminares de um projeto-piloto realizado entre abril e novembro de 2022, cujo objetivo foi introduzir e avaliar o uso da ferramenta Narrativas do imagineRio por professores que atuam na cidade do Rio de Janeiro. O Narrativas é uma ferramenta aberta e gratuita para escrever histórias baseadas em mapas, que permite envolver os alunos na geografia histórica da cidade por meio do atlas interativo da plataforma imagineRio. O estudo analisou propostas pedagógicas que utilizam a geolocalização como recurso para aproximar os alunos do espaço geográfico e relata a recepção inicial dos participantes do projeto piloto, bem como os usos potenciais da ferramenta em suas metodologias de ensino e aprendizagem.
Palavras-chave
história cultural; geografia histórica; inovação pedagógica; digitalização
Resumen
Este artículo presenta los resultados preliminares de un proyecto piloto llevado a cabo entre abril y noviembre de 2022, cuyo objetivo fue introducir y evaluar el uso de la herramienta Narrativas de imagineRio por parte de docentes que trabajan en la ciudad de Río de Janeiro. Narrativas es una herramienta abierta y gratuita para escribir historias basadas en mapas que permite involucrar al estudiantado en la geografía histórica de la ciudad a través del atlas interactivo de la plataforma imagineRio. El estudio analizó propuestas pedagógicas que utilizan la geolocalización como dispositivo para acercar al alumnado al espacio geográfico, e informa sobre la recepción inicial de quienes participaron en el proyecto piloto y los usos potenciales de la herramienta en sus metodologías de enseñanza y aprendizaje.
Palabras clave
historia cultural; geografía histórica; innovación pedagógica; digitalización
Abstract
This article presents the preliminary results of a pilot project carried out between April and November 2022 to introduce and evaluate imagineRio Narratives with teachers and educators active in the city of Rio de Janeiro. An open and free tool for writing map-based stories, the Narratives tool allows students to engage in the historical geography of Rio through the interactive atlas of the imagineRio platform. This article presents discussions on pedagogical proposals that use geolocation as a device for students to interact with geographic space, reporting the initial reception of teachers participating in the pilot project and the potential uses of Narratives in their teaching and learning methodologies.
Keywords
cultural history; historical geography; pedagogical innovation; digitization
Recepción del original: 1 de septiembre de 2024.
Aceptado para publicar: 31 de marzo de 2025.
Escrita no espaço: Reflexões iniciais sobre as Narrativas do imagineRio como ferramenta de ensino
1. Introdução
De acordo com Berry & Fagerjord (2017), as Humanidades Digitais são um campo de estudos que promove a aplicação de tecnologias baseadas em computadores nas pesquisas de humanidades. Acompanhando as transformações tecnológicas da sociedade que, segundo Milton Santos (1996), encontra-se imersa em um meio técnico-científico-informacional, esse campo de pesquisa tem assistido à expansão de suas metodologias computacionais através da criação de plataformas abertas e colaborativas, dedicadas às aplicações específicas como, por exemplo, a transcrição de fontes manuscritas[1]. Entretanto, no contexto de desigualdade presente nos países latinoamericanos, as Humanidades Digitais seguem produzindo uma série de tensões entre suas potencialidades metodológicas e as limitações de cada contexto social, ainda distante de se consolidar na formação de estudantes e pesquisadores (l’Hoeste e Rodríguez, 2020).
Profissionais das humanidades que atuam no ensino têm utilizado cada vez mais plataformas tecnológicas em suas práticas pedagógicas, seja na educação básica ou no ensino superior. Na sala de aula, ferramentas de pesquisa se misturam à produção de conteúdo, com canais de vídeos, podcasts, e perfis em redes sociais se tornando importantes ferramentas de divulgação científica (Wiziack e dos Santos, 2019). Nesse contexto, docentes estão sempre à procura de qualificação em relação às possibilidades de aprimoramento de suas práticas pedagógicas e, consequentemente, no desenvolvimento de uma melhor relação de ensino-aprendizagem.
A representação do espaço urbano ocupa um papel de destaque nas plataformas tecnológicas disponíveis ao ensino, e o aspecto visual dessas novas experiências de pesquisa tem sido discutido por autores como Richard White (2010) e William Rankin (2020). Através da visualização de dados geográficos, novos problemas e perguntas de pesquisa se tornam possíveis, expandindo os processos de análise histórica para considerar a “visualização em si [como] uma ferramenta de pesquisa" (White, 2010, p. 6). Aplicados à história urbana e história ambiental, esse novo paradigma indica caminhos para abordagens metodológicas que contextualizam a morfologia urbana para além dos elementos constitutivos de sua paisagem, evidenciando os diversos atores e processos envolvidos em sua transformação ao longo do tempo. Essas ferramentas se inserem no debate sobre as contribuições efetivas das Humanidades Digitais, em particular da história digital, na formulação de novos argumentos de pesquisa (Arguing with Digital History, 2017).
No caso do Rio de Janeiro, os estudos sobre evolução urbana e geografia histórica estão bastante consolidados na academia. Autores como Lysia Bernardes & Maria Therezinha (1987) e Mauricio Abreu (2022) contribuíram enormemente para o campo de pesquisa dos estudos urbanos cariocas. Entender a criação da cidade, sua expansão e as mudanças ocorridas em sua morfologia são fundamentais tanto para a compreensão da sociedade como também para o próprio planejamento urbano "daquela determinada cidade" (Abreu, 2014, p. 45), servindo de referência para outros grandes centros urbanos latinoamericanos. Essa temática do Rio de Janeiro costuma estar presente em concursos e provas de vestibular, muitas vezes se apresentando como representativa da própria história do Brasil. Mas, para além das particularidades do contexto carioca, a utilização de ferramentas de escrita e visualização urbana em sala de aula se apresenta como uma potencialidade nas práticas pedagógicas em geral, podendo ser replicada em outras localidades com estudos urbanos consolidados.
Lançado em 2015, a plataforma imagineRio oferece um atlas interativo que ilustra a transformação urbana e social da cidade do Rio de Janeiro, desde sua fundação até os dias atuais (Aroom et al., 2015). Desenvolvida na Universidade de Rice, nos Estados Unidos, a plataforma permite a visualização de mapas históricos, fotografias, e projetos urbanos associados à sua localização e ano de ocorrência, ilustrando a história da cidade, como existiu e como foi imaginada, no tempo e no espaço. Através da geolocalização de mapas históricos em um sistema de informação geográfico, é possível acompanhar a mudança no traçado de ruas, demolição de morros e construção de aterros, através de uma linha do tempo que filtra os dados geográficos de modo simples e intuitivo.
Em 2020, a plataforma lançou uma nova ferramenta de escrita de histórias baseadas em mapas, permitindo aos usuários criarem suas próprias narrativas sobre a história da cidade. As Narrativas do imagineRio foram concebidas inicialmente como uma ferramenta pedagógica para estudantes de graduação. Nela os usuários podem criar uma sequência de cartões, utilizando um editor similar aos programas de apresentação de slides, que são associados a um local e ano específico no atlas interativo do imagineRio. Cada cartão pode ser customizado em diferentes tamanhos, com imagens, vídeos e textos. Além disso, os usuários podem anotar pontos, linhas e polígonos, criando novas camadas de dados geográficos relevantes a cada narrativa. O resultado é uma publicação interativa, em que a transição entre cada cartão é animada suavemente, orientando os leitores na navegação entre diferentes regiões da cidade e momentos no tempo. A ferramenta é gratuita, bilíngue (português e inglês), e está disponível ao público (Figura 1).
Figura 1. Editor das Narrativas do imagineRio
Fonte: Narrativas do imagineRio. Disponível no endereço https://narratives.imaginerio.org/
Durante o desenvolvimento da ferramenta, as Narrativas foram testadas por um restrito grupo de pesquisadores que atuam ou possuem vínculo com a cidade do Rio de Janeiro. Esse grupo ofereceu sugestões de funcionalidades e ajustes na organização da interface, que foram incorporadas e já estão disponíveis ao público. Em seguida, sua primeira aplicação em sala de aula ocorreu na própria Universidade de Rice, na disciplina “História Social e Arquitetônica do Rio de Janeiro”, ministrada pelos professores Alida Metcalf e Farès el-Dahdah, oferecida para estudantes de graduação.
É importante destacar que a utilização da ferramenta fora do contexto do Rio de Janeiro, por estudantes que nunca visitaram a cidade, aponta para suas possibilidades pedagógicas em outras cidades e até mesmo outros países. Mesmo sem conhecer o Rio de Janeiro, as Narrativas proporcionam a discentes entrarem em contato não apenas com a história da cidade, mas também a se apropriarem de novas tecnologias de Humanidades Digitais. Ainda, no contexto da América Latina, por exemplo, considerando o processo geohistórico de formação socioespacial oriundo da colonização ibérica, é possível utilizar a ferramenta para traçar paralelos entre diferentes cidades latinoamericanas e seus processos de formação e evolução urbana.
Assim, expandindo o uso da ferramenta para práticas docentes na cidade do Rio de Janeiro, o projeto "Narrativas do imagineRio: um piloto de Humanidades Digitais de alcance internacional"[2] foi agraciado no final de março de 2022 por uma bolsa oferecida pelo Instituto Ken Kennedy da Universidade de Rice. O projeto teve início em abril de 2022 e foi concluído em novembro do mesmo ano. Este artigo apresenta os resultados preliminares deste projeto, contribuindo para a disseminação das Narrativas do imagineRio e incentivando sua utilização em práticas pedagógicas.
2. Concepção e perfil dos docentes interessados
O projeto piloto nasce do interesse em pensar a utilização da ferramenta Narrativas do imagineRio como metodologia de ensino-aprendizagem aplicada na docência no Rio de Janeiro. Para tal, foram estabelecidos como objetivos, primeiramente, apresentar a ferramenta das Narrativas para docentes da cidade, através da oferta de oficinas, a fim de promover a sua utilização em práticas pedagógicas, tanto na educação básica como no ensino superior. Ainda, num segundo momento, o projeto estabeleceu como meta, após retorno de participantes das oficinas, contribuir para aprimoramentos na ferramenta e analisar suas potencialidades de aplicação no ensino (Figura 2).
Figura 2. Imagem de divulgação das oficinas
Fonte: produzido pelos autores.
Foram realizadas, pois, três oficinas, ofertadas como eventos de extensão da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), divulgadas por meio de chamada aberta em redes sociais institucionais, tendo como público-alvo docentes do Rio de Janeiro. Considerando que as oficinas demandam acompanhamento pessoal visando a instrumentalização para o uso da ferramenta, foram estabelecidas 15 vagas para cada evento. Rapidamente as 45 vagas foram preenchidas. Como as inscrições foram realizadas por meio de formulário online foi possível obter informações iniciais sobre o perfil de docentes interessados.
De imediato, o dado que mais se destacou foi a grande maioria de interessados se concentrar na educação básica. De 45 inscritos, 82,2 % atuam na educação básica enquanto apenas 17,8 % estão exclusivamente no ensino superior (Figura 3). De modo geral, predominaram docentes das áreas de Geografia, História e Pedagogia. No entanto, também chamou a atenção uma presença significativa de docentes do núcleo comum, que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental, com crianças entre 6 e 11 anos, aproximadamente.
Figura 3. Gráfico de inscritos nas oficinas em relação ao nível de ensino em que atua
Fonte: formulário organizado pelos autores, aplicado entre os dias 4 de outubro e 15 de novembro de 2022.
Outro dado interessante acerca do perfil dos docentes que se inscreveram é a sua instituição de origem. De 45 inscritos apenas 2 atuam em instituições privadas de ensino. Dentre as possíveis explicações para isso podemos apontar para o fato de as oficinas terem sido divulgadas e realizadas na UERJ, o que atrairia prioritariamente um conjunto de profissionais que já orbita em torno da universidade pública. Por outro lado, conhecendo a realidade de precarização do ensino público no Rio de Janeiro, este dado poderia indicar para uma maior procura por qualificação e técnicas inovadoras por parte de docentes destas instituições, enquanto que profissionais da rede privada já contam com uma infraestrutura e acesso a recursos de maior qualidade em seu cotidiano.
Um caminho para um melhor entendimento do que buscavam docentes que se inscreveram é analisar as respostas à pergunta “O que espera da oficina?”. Tivemos respostas bem variadas que demonstram a diversidade de interesses e possibilidades de aplicações. Alguns docentes ainda buscavam um primeiro contato, procurando conhecer a plataforma imagineRio assim como a ferramenta das Narrativas e aprender a utilizá-la. Outros indicaram o desejo de aprofundar seus conhecimentos sobre o Rio de Janeiro ou mesmo experimentar novas visões, como L. N.[3] que respondeu esperar por uma “reflexão sobre outras narrativas sobre a cidade do Rio de Janeiro”.
Uma parcela indicou que gostaria de entrar em contato com novas técnicas e metodologias de ensino a fim de aplicarem em sala de aula. E um ponto de interesse que apareceu bastante entre as respostas foi a busca por possibilidades de uso de mapas como prática pedagógica. G. A., por exemplo, esperava “adquirir conhecimento na área da história através de mapas” enquanto R. N. buscava ampliar suas “práticas pedagógicas com utilização de recursos da cartografia digital”.
Alguns docentes detalharam mais, em suas respostas, os interesses com a oficina, o que nos permite pensar em aplicações mais específicas. Foi o caso de G. N., que expôs suas expectativas da seguinte maneira: “Espero que, com a oficina, novas formas de cartografar ou inscrever-se no espaço geográfico sejam possíveis de serem representadas e, principalmente, que se torne um conhecimento importante e prazeroso para a prática pedagógica futuramente exercida”.
Na mesma linha, outro docente indica o desejo em unir conhecimentos dos campos da História e da Geografia, o que aponta para uma potencialidade de ensino-aprendizagem transdisciplinar da ferramenta. Com suas próprias palavras, C. S. espera:
Expandir o meu conhecimento acerca da geografia histórica da cidade do Rio de Janeiro, possibilitando-me novas maneiras de realizar o processo de aprendizagem com alunos, envolvendo não apenas o tempo (dado a minha formação em licenciatura em História) mas o espaço como um dos fatores de análises da Ciências Humanas.
Ainda, vale destacar alguns direcionamentos específicos feitos pelos inscritos. S. B., por exemplo, indicou o interesse na oficina para “ampliar o repertório cartográfico para desenvolver trabalhos de pesquisa e ensino na área das relações étnico-raciais e Geografias Negras”. Este apontamento expõe mais uma potencialidade da ferramenta, de caráter colaborativo na realização de trabalhos comprometidos com uma educação antirracista, base fundamental para o ensino no Brasil, inclusive estabelecido em lei.[4]
Por fim, algumas respostas demonstraram como as Narrativas do imagineRio, apesar de estarem focadas na cidade do Rio de Janeiro, possibilitaram aos docentes imaginar sua aplicação em outras cidades. É o caso de R. P., que compartilhou a expectativa por “aprendizado, extensão, avaliação da possibilidade de replicar este projeto informatizado na cidade histórica de Paraty”. Indo além, pensando na sua vivência, não só como profissional mas também em sua trajetória pessoal, L. M. indica seu desejo: “Que eu possa recontar meu espaço e compreender o local e território que atuo”.
3. As oficinas e seus resultados iniciais
Como apontado anteriormente, tivemos 45 docentes inscritos para as oficinas, o que representou o preenchimento de todas as vagas disponibilizadas. No entanto, apenas 15 pessoas compareceram. Este dado, frustrante a princípio, pode ter explicação em alguns fatores. Uma possibilidade seria a grande oferta de eventos acadêmicos e a facilidade de acesso à divulgação, intensificada pela utilização de redes sociais como espaço de comunicação institucional. Outra hipótese reside na sobrecarga de trabalho enfrentada por docentes no contexto pós-pandemia, quando do retorno ao ensino presencial. Esta tem sido nota comum entre profissionais da educação que relatam as dificuldades vivenciadas no espaço escolar e os impactos nos processos de ensino-aprendizagem.
Ainda assim, esse baixo comparecimento não comprometeu a realização das três oficinas ou mesmo das etapas futuras. Conforme também indicado anteriormente, estas oficinas consistiram nas primeiras oportunidades de contato direto e presencial com docentes que atuam no Rio de Janeiro com o objetivo de apresentar as Narrativas do imagineRio e verificar suas potencialidades. As trocas ocorridas nas três ocasiões demonstraram grande interesse na ferramenta e nos forneceram indícios iniciais dos caminhos que podem ser percorridos.
De imediato, na parte inicial de apresentação do projeto e da plataforma, foi possível perceber um encantamento por parte dos participantes, seguidos de enorme animação com a parte de experimentação das Narrativas. Foi destacado por docentes o grande potencial pedagógico da ferramenta e a vontade de logo testar com estudantes. R. G., por exemplo, em seu retorno sobre a oficina, ao ser perguntado sobre como imagina que a ferramenta poderia ser utilizada em seu processo pedagógico, indicou que “além de utilizá-la para a exposição de determinados temas, eu demandaria que os meus próprios alunos construíssem suas histórias na ferramenta de Narrativas do imagineRio”.
No retorno oferecido pelos participantes notamos dois aspectos interessantes acerca das potencialidades da ferramenta: a amplitude de aplicação em relação ao nível de escolaridade e a inclinação ao trabalho colaborativo e transdisciplinar. Enquanto L. P. apontou para o desejo de “utilizar as Narrativas no trabalho sobre a cidade do Rio de Janeiro com as crianças dos 4º e 5º anos do EF”.[5] T. L. descreveu sua aplicação na graduação em Geografia:
Utilizaria para dar aulas de Geografia Histórica do Rio de Janeiro. Provavelmente em conjunto com outros professores de outras disciplinas. Usaria tanto para fazer apresentações minhas para os alunos quanto para pedir que os alunos façam suas produções e compartilhem com a turma. Muito importante para visualizar o Rio de Janeiro do Passado. Outra alternativa, seria de, ao fazer um campo na cidade, pedir para os alunos produzirem o relatório do mesmo, inserindo material próprio em conjunto com o oferecido pela plataforma, para tal. Ou, ao planejar o campo, uma "narrativa" poderia ser o percurso a ser acompanhado pelos alunos quando do trabalho.
O último ponto destacado por T. L. também demonstra uma outra potencialidade pedagógica da ferramenta: o uso fora da sala de aula. Desta forma, as Narrativas podem representar não apenas um recurso inovador para o processo de ensino-aprendizagem mas também contribuir para uma prática pedagógica que ultrapasse os muros das escolas e universidades. Apesar da resposta focar na formação em Geografia, os trabalhos de campo são uma prática presente em diversos níveis escolares e disciplinas acadêmicas, como História e Arquitetura, por exemplo. Assim, a utilização da ferramenta neste processo pedagógico pode contribuir para o exercício da imaginação, sendo um aliado para a assimilação e aprendizagem de estudantes.
Apesar do excelente retorno obtido de participantes e das ótimas ideias que surgiram no processo, é necessário apontar a ressalva feita pelo conjunto de docentes em relação às possibilidades reais de aplicação em seus cotidianos. A empolgação muitas vezes se misturava com um tom de pesar, frente à realidade enfrentada nas instituições de ensino em que trabalham. Considerando que quase a totalidade de pessoas inscritas eram docentes de instituições públicas, questões como ausência de laboratório de informática e de rede de internet foram mencionadas como limitações para o uso da ferramenta no local de trabalho. Outro aspecto indicado foi o fato de o perfil de estudantes dessas instituições ser composto por uma parcela considerável de pessoas de baixa renda, o que muitas vezes significa possuir dificuldades de acesso a computadores e internet.
Ainda assim, mesmo reconhecendo os desafios existentes, em geral, docentes procuravam apresentar soluções que contornassem as situações limitantes. Desta forma, algumas sugestões de melhoria iam surgindo, como resultado de uma troca coletiva. Uma dessas sugestões foi a possibilidade de baixar a narrativa para ser utilizada pelo professor ou pela professora em sala de aula de modo que não seja necessário depender de internet. Outra sugestão bastante interessante foi a possibilidade de criar uma sala de aula virtual, um espaço comum do docente com sua turma, onde seja possível visualizar todos os trabalhos de estudantes agrupados em formato galeria.
Por fim, ao perguntarmos “Quais os pontos positivos da ferramenta?”, obtivemos respostas bem distintas, desde uma análise mais geral até apontamentos bem específicos. Enquanto alguns participantes indicaram o caráter interdisciplinar, a abordagem da relação entre espaço e tempo, ou mesmo a possibilidade das Narrativas poderem ser utilizadas para a realização de trabalhos por parte de estudantes, outras pessoas se preocuparam em detalhar suas respostas.
Esse foi o caso de T. L., por exemplo, que apontou como pontos positivos da ferramenta “a possibilidade de adicionar figuras geométricas no mapa base; a possibilidade de sobrepor os mapas e planos históricos; a diversidade iconográfica do acervo; possibilidade de incorporar hiperlinks e mídias de sites terceiros”. Já R. G. indicou que:
Entre os pontos positivos, destacam-se os seguintes: 1) disponibilidade de basemaps do Rio de Janeiro georreferenciados; 2) acesso online e que não demanda a instalação de softwares e aplicativos no dispositivo do editor da narrativa; 3) suporte para múltiplos formatos de mídia, a exemplo de fotografias, mapas e vetores.
4. Considerações finais
Após essa primeira iniciativa de oferta de oficinas direcionadas para docentes do Rio de Janeiro foi possível elencar algumas percepções acerca da experiência. De modo geral, verificamos um enorme interesse em conhecer e aprender a utilizar a ferramenta Narrativas do imagineRio. Tal fato foi observado tanto no momento das inscrições, quando todas as vagas disponibilizadas foram rapidamente preenchidas, quanto durante as oficinas, onde docentes demonstraram grande empolgação no processo.
Um ponto importante a ser destacado é o fato de as oficinas terem atraído, em sua quase totalidade, docentes da educação básica. É interessante pensar no porquê deste dado uma vez que a ferramenta fora pensada, inicialmente, para ser aplicada no ensino superior. Talvez o motivo esteja ligado com características do mundo contemporâneo, onde a escola do modelo tradicional vai se afastando cada vez mais da realidade tecnológica-informatizada vivenciada pela sociedade.
Este crescente abismo, muitas vezes imposto pela infraestrutura precária das instituições públicas de ensino no Rio de Janeiro, pode levar profissionais da educação a buscarem novas ferramentas capazes de auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Isso porque um dos grandes desafios da atualidade na educação básica tem sido tornar as aulas mais atrativas para estudantes que se veem cada vez mais desinteressados por este modelo educacional. Assim, a utilização de novas tecnologias e abordagens pode levar a um maior envolvimento por parte do corpo discente.
Da mesma forma, também há a intenção, por parte do corpo docente, de fazer com que os conteúdos programáticos sejam mais palatáveis. Por se tratar de estudantes mais jovens, ocorre de alguns conteúdos serem mais complexos para assimilar. Deste modo, a ferramenta pode contribuir para dar concretude e dinamismo para aulas com maior dificuldade de compreensão para estudantes. Portanto, pode ser que esta realidade contribua para que um número maior de docentes da educação básica procure cursos de qualificação do que aqueles de ensino superior.
Sendo assim, considerando as reflexões acima, podemos assumir como primeira resolução para passos futuros, a oferta de novas oficinas direcionadas, especificamente, para docentes da educação básica. Inclusive, esta foi uma das sugestões que surgiram a partir do retorno de participantes. Esta sugestão reflete não só o interesse de docentes em partilharem as Narrativas do imagineRio com colegas de profissão, mas também como ainda temos um grande potencial de crescimento no Rio de Janeiro.
Em paralelo, outra sugestão recorrente foi pensar em possíveis ajustes na ferramenta para sua melhor adequação ao ensino básico. Talvez a mais emblemática tenha sido a possibilidade de cada docente criar sua própria sala de aula virtual onde as turmas estariam reunidas e as narrativas produzidas por estudantes expostas em formato galeria. Esta sugestão aponta para o potencial múltiplo das Narrativas, onde a ferramenta poderia possuir diferentes categorias a fim de atender a propósitos distintos, mesmo que complementares, como, por exemplo, uma sessão revista, uma sessão educacional, etc.
Assim, podemos afirmar que esta primeira experiência de oferta das oficinas para docentes do Rio de Janeiro foi bastante positiva e frutífera. A forma como as Narrativas do imagineRio foram recebidas por docentes demonstrou como esta ferramenta pode servir a diversos níveis de escolaridade, sendo grande aliada nos processos de ensino-aprendizagem em diferentes disciplinas. Estes primeiros resultados, portanto, nos conduzem a pensar os próximos passos, seguindo na disseminação da ferramenta e no seu aprimoramento para fins educacionais.
Para além da experiência do projeto piloto, de seus primeiros resultados e passos futuros, pensando nas potencialidades das Narrativas do imagineRio como prática pedagógica, é fundamental destacar que apesar de se tratar de uma ferramenta voltada para o Rio de Janeiro, sua aplicação não se restringe a salas de aula da cidade. Inserida no contexto das Humanidades Digitais, as Narrativas representam uma importante contribuição para a disseminação de novas tecnologias de ensino-aprendizagem. Sua utilização aponta para a crescente necessidade de atualização das práticas pedagógicas inovadoras, que estejam alinhadas ao meio técnico-científico-informacional que nossa sociedade se encontra.
Por este motivo, seja na educação básica ou no ensino superior, seja no Rio de Janeiro, nos Estados Unidos, na América Latina, ou em outras partes do mundo, a ferramenta pode ser utilizada, por exemplo, para se estudar a cidade do Rio de Janeiro, para a realização de estudos comparativos com outras cidades, para a elaboração de conteúdos autorais temáticos por diferentes docentes e estudantes, ou mesmo para o estudo de tecnologias educativas. São inúmeras as possibilidades, tantas quanto forem os interesses das pessoas que se aventurarem pelas Narrativas do imagineRio. Esperamos que novos trabalhos surjam destas experiências.
Referências bibliográficas
Notas
[1] Um exemplo de plataforma criada no contexto das humanidades digitais aplicada à pesquisa histórica, o Transkribus permite o reconhecimento de caracteres em documentos manuscritos utilizando métodos de inteligência artificial. O projeto é mantido pela cooperativa ReadCoop e financiado por diversas instituições da união européia: https://readcoop.eu/transkribus/
[2] Submetido originalmente como “imagineRio Narratives: a DH international outreach pilot”.
[3] Os nomes dos participantes foram modificados a fim de proteger a identidade de docentes.
[4] Lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas instituições de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares. Presidência da República do Brasil. (2003, 9 de enero). Lei n.° 10639. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm
[5] Os 4° e 5° anos do Ensino Fundamental correspondem, aproximadamente, a estudantes entre 8 e 11 anos.